Sexta à noite. Rotina se repete: marido parte para o trabalho, eu cuido dos afazeres domésticos, alimento minhas cadelinhas (e agora gatinha) e tomo um banho. Abro uma garrafa de vinho, ou uma cerveja, e vou para o sofá. Navego pelo Facebook, Snapchat, Instagram, Whatsapp, Youtube. Mais um gole. A vida é boa!
Talvez eu esteja ficando velha. Talvez eu JÁ esteja velha. Mas agora, com trinta e cinco anos - sim! 35, eu sei que não parece! - me pego valorizando e me apegando a coisas que não fariam minha cabeça há dez anos atrás. Se você é da minha geração, ou mais velho, sabe exatamente do que eu estou falando. Se você é mais novo, continue lendo, pois um dia passará por isso também.
Meu pai. Cara, na minha adolescência eu não entendia nada sobre meu pai. Trabalhava demais, era sério demais, conversava de menos. Sempre quieto, na dele. Mas, que coração!! Hoje, eu aos trinta e cinco, e ele aos 72, vejo tudo diferente: que cara vencedor! Começou seus estudos, no primeiro ano do primário (hoje fundamental) aos 10 anos. Sim, amiguinhos, com 10 anos!!! E, sabe o que aconteceu depois? Foi fazer o Fundamental II, aos 20 e o Ensino Médio, que naquele tempo se chamava "Científico", dos 25 aos 27 anos num colégio chamado João XXIII, em Maringá. Normal, né? Sim. Só que ele morava em Paiçandu, não tinha ônibus nos horários que precisava e muto menos carro. Sabe o que ele fazia? Vinha de bicicleta, ta ligado, todo santo dia, de Paiçandu até Maringá, na bike. Que pernocas devia ter papai, não é? E quando chovia? Ah, daí era ele quem carregava a bike, para não atolar no barro. Já se imaginou fazendo isso para poder estudar? É, eu sei que não... E, ao voltar do colégio, ele ia para a roça trabalhar. As tarefas e os trabalhos? Fazia depois, à noite, na base do lampião (você já viu um?). Lembro dele me contando que "ficava com o nariz todo preto, sujo da fumaça que saía do lampião". Mas, ele persistiu. E conseguiu passar em dois (!!!) vestibulares da UEM. Escolheu um curso, Economia, e concluiu, já com 35 anos, casado e com uma filha, seu Ensino Superior. Foda, né? Sim, eu sei.
Minha mãe. Mano do céu! Com essa eu briguei, heim? Altas tretas com ela na minha adolescência toda! Pensa: ela de Áries, eu de Leão. Eram brigas infinitas. Mas o amor sempre foi infinito também. Ela já não teve a mesma vontade, coragem ou persistência do meu pai. Além de tudo, mulher, né? "Mulher quer estudar pra quê?" Então, ela fez até o que seria o nono ano de hoje. Mas, aos 10 anos já trabalhava em casa de família, limpando, cuidando de criança, essas coisas. Trabalhou muito, essa guerreira. Pensa em uma baixinha tinhosa. Então, é minha mãe. Exemplo de mulher com M maiúsculo!! Como ela e meu pai, virginiano, deram certo e estão juntos há mais de 40 anos, aí eu já não sei. Como diria o poeta contemporâneo Zezé di Camargo: "é o amooooor!!"
Meu marido. Amiguinhos,não quero fazer propaganda nem nada, mas meu marido é foda demais! Ele me dá provas de amor de maneiras mais fora do padrão possíveis. E, confesso, demorei para perceber isso. Sabe quando você ama animais, gostaria de ter vários em casa, mas a pessoa com quem você divide a casa não sente o mesmo? Então. Não estou falando da Jolie e da Cookie, não. Fernando não gosta de gatos. Estou falando da Corona. Fernando tem aflição a gatos. Mas, mesmo assim, não poupou esforços e apareceu com madeira, lonas, tijolos e afins, e construiu uma master casa para ela poder abrigar-se com seus bebês. Ele sabia como isso era, e é, importante para mim. Flores? Chocolates? Jantares românticos? Sim, ele faz tudo isso. Mas, convenhamos: construir uma casinha super segura para abrigar minha mais nova paixão, a Corona, foi uma prova de amor sensacional!
Eu poderia prosseguir, mas não quero cansá-los, amados leitores. O que eu quero, com essas histórias, é mostrar que ser feliz também é reconhecer o amor e o sacrifício do outro. Roupas novas, sapatos lindos, festas maravilhosas? Gosto, amo, adoro! Mas, isso é efêmero. As atitudes ficam. Os exemplos são lembrados. O carinho afaga a alma. E, do que mais precisamos se não um afago na alma? Um aconchego, um abraço, um " eu te amo" em forma de um almoço delicioso feito por mamãe, ou uma ajuda em Matemática feita por papai, ou "já dei a ração da gata", dito por meu marido?
Com o tempo, aprendemos a valorizar esse tipo de demonstração de amor. Com o tempo, aprendemos que a felicidade está sempre ao redor. Mas, só o tempo traz isso. Conversa de gente velha? Pode ser. Quem disse que já não estou velha? Se estar velha é reconhecer tais carinhos, sim, estou bem velha. E muito feliz, obrigada!
Marcia