quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sobre educação: estamos fazendo isso muito errado!

Depois de tudo o que vi acontecendo com as pessoas em relação à Copa e ao fim trágico do Brasil, destaco aqui um problema que saltou aos olhos, e que há um tempo me dou conta de que está acontecendo: não sabemos educar para o fracasso, e cada vez menos tentamos fazê-lo.

Tendo como moldes de educação programas dos Estados Unidos, onde diga-se de passagem a educação na família é de péssima qualidade ( na minha opinião e pelo o que eu vivenciei quando morei lá), onde uma super babá vai até a casa da família e "resolve" a questão, nós, brasileiros, estamos enfiando os pés pelas mãos! E essa certeza só piorou quando ouvi da boca do senhor Galvão, o narrador, "Quanto tempo o garotinho que estava chorando na arquibancada vai demorar para esquecer esse vexame? Quantos anos para esquecer o dia de hoje?" É sério isso, minha gente? Bem disse minha amiga Cláudia Gatti, em resposta à essa pergunta ridícula do Galvão, "vai demorar o tempo de chegar em casa, tomar um banho, comer alguma coisa e ligar o X-BOX..."

Vocês já perceberam que essa geração de crianças e adolescentes não sabe lidar com a frustração, o não, o fracasso? Mas, claro! Como é que saberiam se nós, os adultos, não estamos conseguindo educá-los para tanto. Veja: se alguém chamar meu filhinho de qualquer coisa feia, eu vou até a escola e exijo retratação. Se algum professor ousar dar uma nota vermelha ao meu anjinho, eu vou até a escola e exijo outra correção. Perceberam o erro? Eu, como professora, vivencio essas situações todos os dias, em sala de aula, nos corredores, na sala dos professores, na rua...Não se admite mais ser fraco, ter defeitos, ser preto, branco, gordo ou magro. Retrate-se, agora, pelo o que eu sou! Rá!

Meu sábio pai, sempre ele, me dizia uma coisa muito esperta: "se você não der audiência, essas coisas passam rápido. É só fingir que não é com você, que a pessoa percebe que não faz sucesso e desiste." Que homem maravilhoso, né? É claro que eu, criança, odiava esse conselho, mas seguia sempre. E olha que eu sofria muito bullying na escola. No tempo que essa palavra não existia em nossos dicionários, eu era chamada de magrela, campeã de nado, vareta de bater pecado, e por aí vai. Não pense que só os gordos se ofendem com xingamentos. Todos se ofendem e ninguém gosta. Mas, e daí? Sabemos que o ambiente escolar é feito disso também: piadas, muitas vezes de péssimo gosto, entre os colegas. E que levante a mão quem nunca sofreu ou causou bullying na escola! (eu fiz os dois) Vocês sobreviveram? Ou o que ouviram se tornou um trauma terrível em suas vidas, que os impede de viver normalmente hoje?

Como é que uma criança, Galvão, vai saber lidar com a queda dos heróis, se nunca precisou lidar com isso na vida? Minha amiga Cláudia saberia o que fazer: "vai tomar banho menino, que a janta tá pronta! Daqui quatro anos tem mais!" E é isso. Aprenda: a vida é feita muito mais de quedas do que de vitórias, pode ter certeza. E é isso que faz o momento da vitória tão saboroso, tão sonhado e tão bom! Será que é tão difícil mostrar aos nossos pequenos que a vida é assim? Ou você realmente imagina que seu filho, sobrinho, afilhado, irmão, vai viver longe de tudo o que é ruim, numa redoma de vidro, para sempre? Doce ilusão! Sabe de nada, inocente!

A vida é cruel: emprego, contas a pagar, frustrações, brigas, nota baixa, reprovação, falta de emprego, contas vencendo,traição, divórcio, morte...perder a Copa do Mundo, enfim! Quero mesmo acreditar que hoje, dois dias depois, mais calmos e já tendo lido muito à respeito, estejamos bem para admitir que a seleção brasileira não jogou nada, ficou apavorada, deixou a pressão psicológica dominar e foi fraca. Pronto, é isso. Só isso. É esporte, minha gente! Alguém tem que perder. E dessa lição, temos que tirar todas as outras para educar nossos pequenos: se você não se dedicar, vai tirar nota vermelha sim, não é a professora que dá a nota, é você que tira. Se aquele menino te chamar de "gordo" e você chorar, brigar, espernear, vão te chamar de gordo para a vida toda! E o que você pode fazer para mudar isso? Ou siga o exemplo do meu pai, e ignore que passa ( realmente, passa) ou vá fazer uma atividade física e melhore sua forma. Acorde!

Me apavora, realmente, a ideia de que estamos educando pessoas psicologicamente fracas, despreparadas para o mundo real, e que vão começar a atirar e matar todos aqueles que as contrariarem. Já imaginaram? Isso sim dá medo. Perder é ruim, claro. Mas faz parte. Levante a cabeça, criança, e siga em frente. Fortifique-se nos fracassos, para saber saborear a vitória!

P.S.: Quero deixar claro aqui que não levanto bandeira pró-bullying ou preconceito de maneira nenhuma. E sei bem que existem casos graves, muito graves, mas não é sobre isso que falei aqui. Levanto a bandeira pró-educação real, sem mentir ou omitir as mazelas da vida.

P.S. 2: Por favor, gostaria de saber sua opinião. Comente, aqui ou no Face, pois seu feedback é extremamente necessário para mim :) Thanks!


Marcia


6 comentários:

  1. Escrita muito bem humorada. Bons argumentos. E a tua vivência te sustenta com essa argumentação. Eu também concordo que devemos ser um pouco mais rígidos na educação de nossas crianças. Um tapinha sim é válido e muitas vezes resolve o problema. Mas o principal é desde cedo educar a criança para o diálogo e para as verdades da vida. Se os pouparmos agora, mais tarde seremos cobrados por isso. Grande abraço, Marcia.

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  2. Sinto-me honrada em ser citada em seu texto (ótimo texto, aliás). Realmente as crianças e jovens estão crescendo sem saber levar um "não" Não sabem reagir frente a uma negativa. Quando forem adultos o que fão perante uma situação em que forem rejeitados? Sentarão e chorarão? Ligarão para os pais? espero que muitos possam ler esse seu texto e que a "ficha possa cair" rápido!

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  3. É isso aí, Marcinha! Lindo texto. Temos de aprender a lidar com as derrotas da vida desde pequenos, mas, infelizmente, muitos pais ainda não acordaram para isso. A escola, sozinha, não consegue dar conta de tudo. Grande abraço.

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  4. Simples: mostrar aos pequenos desde cedo o fracasso e a vitória, bem como o caminho para os dois e deixar que ele escolha. Tenho a certeza que os beneficios da vitoria demonstrarão a ele que há nesse caminho árduo mais vantagens que desvantagens. Trabalhar duro dá trabalho, ou a coisa é séria desde o começo ou não é. E mesmo trabalhando duro, não há garantias do sucesso. Simples assim. Porém, as chances são maiores do êxito do que do fracasso. Tenho claro na minha cabeça que posso incentivar minha pequena Luísa a ser uma vitoriosa: DESDE QUE ela batalhe por isso, não espere cair tudo no colo e não ache que tudo nada vida é fácil e vem de graça... Tudo é uma escolha, seja para o bem ou para o mal!!!! A vitória ou o fracasso também é: depende do caminho que vc escolheu seguir!!!!

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